A política social do Instagram

A política social do Instagram

Janja levantou um botijão de gás para foto. Foi mais de 20 anos depois que o Bolsa Família foi criado, incorporando o Auxílio Gás que foi então encerrado e que, por sua vez, era uma transferência de renda no governo Fernando Henrique – jamais, a distribuição de um botijão de gás.

Eduardo Paes tirou foto com um Ozempic gigante. O prefeito de Belém postou um vídeo sobre a distribuição gratuita de guarda-chuvas. O governo federal está construindo lavanderias públicas. O ministro da Educação e a ministra da Gestão postaram foto segurando carteira nacional de professor, que tem o brasão da República.

Estamos na era da política social do Instagram, a política social da performance. Nunca foi tão chato pensar em efetividade de políticas públicas, nunca foi tão legal ter um objeto tangível e instagramável para mostrar aos eleitores.

A política social do Instagram não é necessariamente ruim. Ela pode ser extremamente barata. Muito mais simples do que aumentar a remuneração dos professores é postar foto para carteirada de professor. A seu modo, pode ser efetivo também se pensarmos em engajamento.

As lavanderias do Ministério das Mulheres custaram alguns milhões: provavelmente não são escaláveis e nem serão universais. Mas renderam 9.338 likes no Instagram, muito mais do que a postagem chata sobre o Dia Mundial da Segurança dos Alimentos, com somente 121.

O Auxílio Gás foi recriado por Bolsonaro como um pagamento e, recentemente, renomeado e distribuído in natura por Lula. Por um tempo, falávamos em unificar benefícios e em dar o dinheiro diretamente para as pessoas, que escolheriam elas próprias o que fazer com ele. Pode ser comprar sabão em pó, comprar alimento seguro, comprar até o botijão de gás.

O problema para os gestores é que todo o papo de avaliação de políticas públicas é chato: já era na era do Jornal Nacional, piorou na era dos algoritmos. Além disso, políticas públicas de impacto custam dinheiro. Distribuir bens para parte da população, de forma que seja visto pelo conjunto da população, é muito melhor.

O liberalismo não tem uma estética boa, como debateu Cass Sunstein recentemente. Eu seria um ótimo político no feed. Em vez de falar da importância de creches para o desenvolvimento infantil na primeira infância, distribuiria enxovais para grávidas.

Melhor do que isso, só transformando a política social do Instagram na política social de bets. Eu sortearia os enxovais. Faria um bingo para tadalafila. Invadiria as escolas com figurinhas do álbum da Copa. Daria implante de cabelo para o leitor que chega ao fim do texto.

Botijão de gás e Ozempic rendem fotos melhores do que políticas públicas complexas

FONTE: O Estado de São Paulo – B4 – 09/06/2026