China bate Brasil em vendas à Argentina

China bate Brasil em vendas à Argentina

A Argentina cortou drasticamente as compras do Brasil e voltou a ter a China como sua principal fornecedora. Neste ano, as importações da China no mercado vizinho superam as do Brasil em US$ 333 milhões. No setor automotivo – principal item do comércio bilateral –, o quadro piora com a substituição de veículos brasileiros por modelos elétricos chineses. Um em cada cinco carros importados pela Argentina já vem da China. Um ano após a entrada em massa de híbridos e elétricos, marcas chinesas somam mais de 9% dos veículos comprados no país. Ao retirar subsídios que aliviavam despesas como luz, gás e transporte público, política do governo Milei apertou o orçamento das famílias e levou muitos argentinos a adiar compras de bens de consumo considerados supérfluos exportados pelo Brasil.

35,4%

Foi a queda de embarques de carros brasileiros para a Argentina de janeiro a junho, para 106 mil unidades

Depois de ajudar, no ano passado, a amortecer o choque do tarifaço americano na balança comercial brasileira, a Argentina agora corta drasticamente as compras do Brasil e volta a ter a China como principal fornecedora. Neste ano, as importações do país asiático no mercado vizinho superam as do Brasil em US$ 333 milhões.

A “motosserra” do presidente Javier Milei, ao retirar subsídios que aliviavam despesas como luz, gás e transporte público, apertou o orçamento das famílias e levou muitos argentinos a adiar compras de bens de consumo supérfluos exportados pelo Brasil. No setor automotivo – principal item do comércio bilateral –, o quadro piora com a substituição de veículos brasileiros por modelos elétricos chineses.

Ainda que a liderança continue com as montadoras brasileiras, um em cada cinco carros importados pela Argentina já vem da China. Um ano após a entrada em massa de híbridos e elétricos, marcas chinesas somam mais de 9% dos veículos comprados no país.

A alta de preços acima da recuperação da renda, os juros elevados e o orçamento comprometido com gastos essenciais fizeram a classe média postergar a troca do carro. De janeiro a junho, as vendas no país caíram 10,5% ante o mesmo período de 2025.

Mesmo com o mercado menor, as cotas liberadas para importar até 50 mil veículos eletrificados com imposto de importação zero ajudaram a ofensiva chinesa.

De janeiro a junho, os embarques de veículos para a Argentina recuaram 35,4%, para 106 mil unidades. Dados citados pela Anfavea, que representa o setor no País, mostram que, em um ano, a participação dos carros brasileiros no total importado pela Argentina caiu de 82% para 56%.

O avanço da China no mercado automotivo argentino, tradicionalmente dominado pelo Brasil, pode ser só o primeiro teste de uma competição que tende a se intensificar com a abertura comercial do governo Javier Milei. A aliança com Donald Trump resultou, em fevereiro, em um amplo acordo comercial que ainda depende do Congresso, mas já provoca protestos e preocupação entre os demais sócios do Mercosul.

Embora as regras do bloco regional impeçam seus membros de negociar acordos tarifários individuais com outras nações, a Argentina se comprometeu a zerar para os EUA as tarifas de importação de 221 posições tarifárias, incluindo máquinas, equipamentos de transporte, dispositivos médicos e produtos químicos. Para outras 20 posições, entre elas autopeças, as alíquotas cairiam para uma taxa fixa de 2%.

Milei aceitou ainda eliminar barreiras técnicas e burocráticas aos produtos americanos que entram em seu país, como as exigências de licenças de importação e de testes adicionais em território argentino, passando a aceitar as certificações regulatórias americanas. Também está prevista a liberação de cotas para a compra de até 10 mil carros dos Estados Unidos por ano, com alíquota zero do imposto de importação.

“Resumindo, os Estados Unidos passaram a concorrer com o Brasil na Argentina. E esta é uma concorrência que, assim como a China, o Brasil não tem como enfrentar. Não temos preço para competir com a China, e muito menos com os Estados Unidos”, comenta José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). “Então, não vejo como reverter a situação. A tendência é, realmente, de queda nas exportações do Brasil para a Argentina”, acrescenta.

Para Federico Servideo, presidente da Câmara de Comércio Argentino-Brasileira de São Paulo (Camarbra), o acordo com os Estados Unidos pode afetar as vendas do Brasil em nichos específicos da Argentina. Ele cita a indústria de máquinas entre os setores potencialmente mais afetados.

“Resumindo, os EUA passaram a concorrer com o Brasil na Argentina. E esta é uma concorrência que, assim como a China, o Brasil não tem como enfrentar. Não temos preço para competir com a China e os EUA”

José Augusto de Castro Presidente da AEB

“Não se prevê um deslocamento total, mas a tecnologia americana pode vir a ganhar algum terreno”, comenta Servideo. Ele pondera que os carros e as autopeças do Brasil, “núcleo duro” do comércio bilateral, dificilmente serão substituídos por concorrentes americanos no curto prazo, dada a integração produtiva entre os países vizinhos e os acordos específicos do Mercosul.

ACORDOS PRÉ-MILEI. Os acordos de cooperação firmados com os governos peronistas que antecederam o atual presidente do país, Javier Milei, dão hoje à China condições de destronar o Brasil no fornecimento à Argentina. Embora tanto o Brasil quanto a China estejam vendendo menos ao mercado argentino em 2026, o impacto sobre os produtos brasileiros é maior.

Não é a primeira liderança chinesa: de 2020 a 2022, Pequim já ocupou o primeiro lugar. Nos três anos seguintes, o Brasil reagiu com a recuperação do mercado automotivo e a recomposição das reservas internacionais argentinas, que desatou o principal nó no comércio bilateral: a falta de dólares para pagar importações.

A proximidade geográfica, a integração produtiva regional e as trocas comerciais livres de imposto, contudo, não bastam para manter o Brasil na liderança. A invasão dos carros elétricos chineses está só começando e tende a fortalecer um fluxo comercial já bastante apoiado por iniciativas da época em que Pequim e a Casa Rosada trabalhavam mais em conjunto.

Após a adesão da Argentina à Nova Rota da Seda, há quatro anos, o capital chinês passou a financiar grandes projetos de energia renovável, mineração, logística e petróleo e gás – incluindo Vaca Muerta, segunda maior reserva de gás de xisto do mundo. Com isso, cresceu a importação de máquinas e equipamentos chineses usados nesses empreendimentos, que puxam a atividade econômica na “era Milei”.

Para Roberto Luis Troster, economista argentino que vive há 50 anos no Brasil, o principal desafio dos dois maiores sócios do Mercosul será aumentar a competitividade da indústria automotiva para enfrentar a enxurrada de carros chineses.

“O carro chinês é mais barato, o futuro é elétrico e tanto o Brasil quanto a Argentina estão demorando para reagir. O primeiro objetivo tem de ser melhorar a competitividade nesse setor, abrindo com isso espaço para um maior comércio entre os países”, comenta Troster.

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