A armadilha entre baixa produtividade e juros altos

A armadilha entre baixa produtividade e juros altos

Nossa produtividade do trabalho é muito baixa em comparação à internacional. Segundo o Penn World Table, em dólares ajustados pelo poder de compra, o Brasil está na 72.ª posição, com cerca de US$ 20 por hora, ante US$ 83 nos Estados Unidos, US$ 32 no Chile e US$ 27 no México.

E o problema não é apenas o nível: segundo Silvia Matos (FGV-Ibre, 24/04/2026), entre 1995 e 2025 a produtividade agregada da hora trabalhada avançou apenas 0,8% ao ano. A exceção foi a agropecuária, cuja produtividade, com correção dos solos do Cerrado, melhoramento genético e incorporação de equipamentos de alta tecnologia, cresceu 6,1% ao ano. O setor mostra como capital e tecnologia podem mudar a trajetória da produtividade.

Ao discutir produtividade, fala-se sobretudo em educação, infraestrutura e instituições. Mas há uma dimensão macroeconômica menos lembrada: o capital por trabalhador e as condições para sua acumulação.

Esse capital vem do investimento, e o Brasil investe pouco. A Formação Bruta de Capital Fixo é menor que 17% do PIB, abaixo de México, Chile e Coreia do Sul. Investir mais não garante maior produtividade: importam a qualidade do capital investido, a tecnologia incorporada e a alocação dos recursos.

É aqui que entram os juros. Quanto maior o juro real, maior o retorno mínimo exigido dos projetos. Segundo a MoneYou e a Lev Intelligence, com juro real de 9,3% ao ano em agosto, o Brasil liderava o ranking de quarenta países. Isso reduz a atratividade do investimento produtivo frente a aplicações financeiras de risco menor e retarda a modernização do capital.

Mas a causalidade opera nos dois sentidos. Juros reais elevados desestimulam o investimento e limitam produtividade e o produto potencial. Ao mesmo tempo, baixo crescimento potencial, fragilidade fiscal e maior prêmio de risco pressionam o juro real. Forma-se uma armadilha: pouco investimento limita o capital por trabalhador; a produtividade cresce pouco; o crescimento potencial fica baixo; e o custo do capital volta a conter o investimento.

Não se trata de baixar juros por decreto. Romper esse círculo exige melhorar o resultado fiscal e a trajetória da dívida, reforçar a credibilidade, ancorar expectativas e elevar a poupança pública.

Cabe também discutir se uma meta de inflação de 3% não é ambiciosa demais para uma economia com alto endividamento, história inflacionária e forte indexação. Se a convergência da inflação para essa meta exige juros reais muito elevados, o custo aparece também no investimento e no crescimento potencial.

Educação, infraestrutura e reformas microeconômicas são indispensáveis, mas o debate ficará incompleto se o custo do capital for visto apenas como consequência, e não como parte do mecanismo que perpetua o baixo crescimento. •

Juros reais elevados desestimulam o investimento e limitam produtividade e o produto potencial.

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