Empresas põem o pé no freio e seguram novos investimentos
Grandes companhias relatam ofertas de crédito bancário próximas de 20% ao ano, o que inviabiliza o aporte em projetos
Diante desse cenário de aperto nos juros, muitas companhias têm adiado novos investimentos. A Trivia Trens, concessionária de linhas férreas do grupo Comporte, da família Constantino – tradicional no transporte rodoviário e fundadora da Gol –, possui cerca de R$ 16 bilhões em investimentos nos projetos em andamento. A empresa assumiu a operação das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13Jade da CPTM, além do Expresso Aeroporto, após vencer o leilão realizado em março de 2025, que lhe garantiu a concessão até 2050.
“Esses investimentos já estão equacionados, mas estamos cada vez mais preocupados com o cenário de crédito para novos projetos. Para captar recursos, o investimento precisa fazer muito sentido e gerar um ganho de eficiência muito elevado”, afirma o presidente da Trivia, Guilherme Bastos. “Em setembro do ano passado, os bancos falavam em CDI mais 1,5%. Hoje, já se fala em CDI mais 3%.”
Segundo Bastos, esse cenário pode reduzir o interesse de empresas por futuras concessões públicas ou limitar o número de grupos com capacidade financeira para executá-las. Em muitos casos, mesmo grandes companhias relatam ofertas de crédito bancário próximas de 20% ao ano. O resultado é a redução dos investimentos privados e do consumo das famílias, anulando parte do efeito expansionista pretendido pelos gastos públicos.
“Com crédito perto de 20% ao ano, a margem de lucro dos projetos precisa ser muito elevada. Um grande projeto ferroviário iniciado do zero deixa a empresa alavancada por cerca de oito anos. Se ela toma R$ 100 milhões emprestados a 20%, terá de pagar R$ 20 milhões por ano apenas em juros”, afirma Bastos.
EMPRESAS MENORES. Os impactos não atingem todas as empresas da mesma forma. Enquanto grandes companhias conseguem acessar o mercado de capitais e diversificar suas fontes de financiamento, micro, pequenas e médias empresas permanecem dependentes do crédito bancário tradicional. Nesse segmento, as taxas de recursos livres alcançaram 19,4% ao ano em março de 2026.
A diferença também aparece na inadimplência. Entre micro, pequenas e médias empresas, a taxa atingiu o recorde de 6%, enquanto nas grandes companhias permaneceu em apenas 0,6%. Entre as pessoas físicas, chegou a 7%.
Outro sinal do agravamento das condições financeiras é o aumento do número de empresas inadimplentes. Segundo o estudo do Centro de Estudos de Financiamento das Empresas Brasileiras (Cefeb),, da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) o total de CNPJs negativados passou de 5,95 milhões em 2022 para 8,8 milhões no início de 2026, alta de quase 3 milhões em quatro anos.
SELIC. A Selic elevada marca boa parte desta década. Após a pandemia de covid-19, em 2020, o governo adotou uma política fiscal expansionista para estimular a economia. Essa estratégia se estendeu pelo período das eleições presidenciais de 2022 e continuou durante o atual governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A série histórica do Cefeb mostra que o custo médio das debêntures emitidas caiu de 12,46% em janeiro de 2017 para 5,77% em julho de 2020, no início da pandemia, quando a Selic foi reduzida a 2% ao ano para amenizar os efeitos da crise.
Com a aceleração da inflação e a elevação da Selic até 15% ao ano, os juros das debêntures voltaram a subir e atingiram o pico de 15,37% em dezembro de 2024. Após recuarem até fevereiro deste ano, voltaram a subir em março e abril.
O cenário também pressiona as contas públicas. “O governo já gasta com juros mais do que o dobro da soma das despesas com educação, saúde e Justiça. É um quadro fiscal difícil. Será necessário um esforço para revertê-lo, embora isso seja improvável em ano eleitoral”, diz o coordenador do Cefeb, Roberto Troster.
Para reverter esse quadro, Troster defende um ajuste fiscal estrutural, incluindo uma reforma administrativa, independentemente de quem vença a eleição presidencial. Também propõe medidas de efeito mais imediato. “É preciso reformar a política de crédito brasileira. Não existem regras
adequadas de precificação, há espaço para reduzir os compulsórios, que são muito elevados, e diminuir a tributação sobre o crédito”, afirma.
Segundo o economista, um cenário semelhante de disparada dos juros ocorreu durante o Plano Collor, no início da década de 1990, provocando forte perda de riqueza, queda do PIB e aumento do desemprego. “Hoje, porém, existem diferenças importantes. O mercado de capitais é mais desenvolvido e oferece mais alternativas de financiamento”, afirma.
“Para captar recursos, o investimento precisa fazer muito sentido e gerar um ganho de eficiência muito elevado”
Guilherme Bastos
Presidente da Trivia “É preciso reformar a política de crédito brasileira”
Roberto Troster
Coordenador do Cefeb
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