PIB do 1º tri: bom, mas não deve prosseguir
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 1,1% no primeiro trimestre de 2026 em comparação com o quarto trimestre de 2025. Do lado da produção da economia, como é habitual no primeiro trimestre, o período é de colheita e a agropecuária cresceu 2,0%, puxada pela soja. Também houve alta na indústria (1,0%) e nos serviços (0,5%), este é o maior setor, mas a se configurar o comportamento dos demais trimestres nos últimos anos, esse crescimento trimestral deverá ser menor até o fim do ano.
Do lado da demanda da economia, o consumo das famílias cresceu 1%, estimulado, em parte, pelas benesses eleitorais do governo Lula, enquanto o consumo do governo cresceu 0,4%, a formação bruta de capital fixo, ou seja, os investimentos, cresceram 3,5%, mas as exportações caíram 1,7% e as importações subiram 4,4% (!), ao que parece, impulsionadas pela compra de uma plataforma de petróleo.
Em relação ao primeiro trimestre de 2025, o crescimento do primeiro trimestre de 2026 foi de 1,8%, o que dá uma ideia da taxa anual do PIB, que os analistas preveem em torno de 2%. Mais precisamente, o relatório Focus, no qual o Banco Central pesquisa a opinião dos analistas do mercado, prevê um crescimento de 1,9%.
Por trás dessas taxas baixas – o PIB do Brasil precisaria crescer pelo menos 4% ao ano – está a baixa taxa de investimentos (em novas fábricas, fazendas ou ampliando as existentes, além de estradas, portos, etc.), que no primeiro trimestre de 2026 foi de apenas 16,5% do PIB, abaixo da taxa verificada no mesmo período do ano anterior (17,6%) do PIB.
Para se ter uma ideia da importância dessa taxa, na China, em seu período de maior crescimento, ela chegou a 40% do PIB. O Brasil deveria tentar investir algo perto de 25% do PIB. O leitor me desculpe pela insistência nesse ponto, mas ele não costuma aparecer nas discussões sobre o nosso baixo crescimento.
Espero que os candidatos à Presidência da República digam o que pensam a respeito. Lula e Flávio Bolsonaro, que estão na frente da corrida, precisam ser indagados pela imprensa e em outros debates sobre o que farão com a taxa de investimento que no período pós-1980 caiu particularmente no setor público, onde chegou a 10% do PIB e hoje está perto de apenas 3%. Se Lula ganhar, ele poderia usar o mandato para colocar a política fiscal em ordem e dar mérito ao fim de sua carreira política, mas o mais provável é que ele tente eleger seu sucessor com o mesmo estilo gastador que marca o seu mandato atual. De Flávio Bolsonaro, não se sabe nada do que pensa sobre o assunto. Assim, é preciso mesmo perguntar a ambos como vai ficar o investimento em relação ao PIB.
O noticiário sobre o PIB parece demonstrar que a sociedade está satisfeita com um crescimento de 2% ou 3% do PIB ou então não demonstra conhecimento do assunto. No plano mundial, o Brasil está ficando para trás na luta pelo desenvolvimento econômico, tendo perdido a posição de 10.ª economia mundial ao mostrar taxas de crescimento inferiores às de seus pares nessa luta.
Do Congresso não se pode esperar nada, exceto o seu grande empenho em emendas parlamentares que facilitam a reeleição de parlamentares diante do apoio que recebem dos prefeitos beneficiados. Ainda recentemente, a Câmara aprovou a eliminação da jornada de trabalho 6×1 para 5×2 sem pensar seriamente nas consequências.
Os empresários, por meio de suas lideranças e entidades, poderiam ter um maior papel na cobrança de maiores investimentos, mas ainda não se organizaram para essa empreitada.
Internamente, aparentemente, há uma contradição entre a política monetária que vem reduzindo os juros ao mesmo tempo em que a pressão inflacionária vinda da expansão do consumo e do aumento dos preços dos combustíveis faz o seu papel. Talvez o Banco Central opte por interromper a queda dos juros, mas isso é só uma possibilidade.
No plano externo, permanece sem fim a guerra no Oriente Médio, fim este que, se seguido pela abertura do Estreito de Ormuz, poderia trazer benefícios para o preço do petróleo, que tenderia a cair. Mas permanece a incerteza, pois isso não acontece. E Trump está de volta com seus imprevistos, como fez ao decretar um novo tarifaço sobre as exportações brasileiras, ao marcar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, e ao seu assessor dizer que não considera o Brasil como um aliado. Fala-se também do efeito do fenômeno El Niño, que poderia impactar a inflação do ano que vem.
Ou seja, ao lado dos baixos investimentos há várias outras questões internas e externas que geram incertezas sobre o rumo da economia e assim também desfavorecem um crescimento maior. Mas para que ele aconteça, continuo entendendo que é preciso mesmo aumentar a taxa de investimento relativamente ao PIB.
FONTE: O Estado de São Paulo – A4 – 5/06/2026
