Para o Itamaraty, EUA ignoraram aspecto técnicos
Integrantes do governo brasileiro avaliam que o esforço de negociações e esclarecimentos aos Estados Unidos no âmbito da Seção 301 foi desconsiderado pelo Escritório do Representante Comercial (USTR, em inglês).
Evitar um novo tarifaço era um dos principais objetivos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O assunto foi central na reunião de trabalho que ele manteve em Washington, na Casa Branca, em 7 de maio, com o presidente Donald Trump. Embora estivesse ciente da iminência da conclusão da investigação, o governo brasileiro esperava que o governo Trump anunciasse uma decisão apenas após o fim do prazo de 30 dias acordado entre os presidentes. Esse prazo terminaria no fim desta semana, e interlocutores de Lula chegaram a pensar numa extensão.
Houve reuniões técnicas e políticas entre autoridades, e o ministro Márcio Elias Rosa (Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) chegou a falar num possível acordo parcial.
Para um diplomata que acompanhou as conversas, foi “como se ninguém tivesse falado nada com eles”, porque as acusações do USTR, consideradas pelo Brasil como “descabidas”, se reproduziram na nota que comunicou a conclusão da investigação. O governo brasileiro se insurge, sobretudo, contra as acusações envolvendo o Pix e o desmatamento.
Um embaixador citou que a argumentação foi toda desconsiderada porque a decisão do governo Trump é mesmo “política” e teria a ver com o lobby da oposição e do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Para integrantes do Itamaraty, o governo Trump reproduziu a mesma “retórica e inconsistência” e parece não ter agido de boa-fé, ao não esperar o fim do prazo de 30 dias.
INFLUÊNCIA. Tudo indica que a decisão tenha tido forte influência do embaixador Jamieson Greer, chefe do USTR. Ele foi o integrante do governo Trump que mais se queixou do Brasil e de tarifas altas brasileiras, de forma genérica, na reunião entre Lula e Trump na Casa Branca em maio.
Ele também voltou a reclamar da posição brasileira que bloqueou, ao lado da Turquia, na Organização Mundial do Comércio (OMC) a extensão da moratória sobre transmissões eletrônicas, que isenta de tarifas bens e serviços digitais.
Foi uma derrota política para Greer, que viajou à reunião e discursou na plenária de forma ameaçadora, segundo testemunhas, prometendo que haveria consequências se a moratória não fosse mais uma vez renovada.
FONTE: O Estado de São Paulo – 03/06/2026 – B2
