Nova escala pode agravar escassez de trabalhadores em mercados e construção
Setores convivem com escassez de mão de obra; para especialista, em todo o País total de trabalhadores teria de ser ampliado em 16,7%
Dois setores intensivos em mão de obra, o varejo de supermercados e a construção civil, poderão enfrentar uma encruzilhada nos próximos 12 meses com a entrada em vigor da nova escala de trabalho 5×2 (cinco dias trabalhados e dois de folga). O Senado aprovou na quarta-feira a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala de trabalho 6×1 e reduz a jornada semanal de 44 para 40 horas, sem redução salarial.
O texto seguiu para promulgação. Nos últimos meses, esses dois setores já vinham enfrentando escassez de mão de obra para preencher as vagas em aberto. Agora, a perspectiva é de que esse déficit aumente ainda mais por causa da necessidade de novas contratações a um custo maior para as empresas. Só no Estado de São Paulo, o maior mercado de trabalho do País, havia em maio 35 mil vagas em aberto nos supermercados.
Na construção civil, o déficit no Estado em meados do ano superava 100 mil vagas, segundo o Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado de São Paulo (Sinduscon-SP), que reúne as construtoras. Para cumprir a nova regra trabalhista, que muda a escala de seis dias trabalhados e um de descanso para cinco trabalhados e dois de descanso, teoricamente seria necessário ampliar em 16,7% o número de trabalhadores no País para os setores que cumprem a escala 6×1, calcula o economista Hélio Zylberstajn, professor sênior da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA/USP). A estimativa considera a necessidade de manter o mesmo nível de produtividade com menos horas disponíveis de trabalho. Na prática, porém, o aumento das contratações não é garantido.
CUSTOS
Associações que representam as construtoras reiteraram “Na prática, o encarecimento das obras poderá significar menos investimentos, atrasos nas entregas e redução do alcance de políticas públicas” Câmara Brasileira da Indústria da Construção, em nota os seus alertas de que a medida trará aumento de custos significativos na produção de imóveis. A Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) estima que a redução da jornada poderá exigir a contratação de aproximadamente 288 mil trabalhadores adicionais a partir de 2027, pressionando os custos de produção e comprometendo o ritmo de execução de obras.
“Na prática, o encarecimento das obras poderá significar menos investimentos, atrasos nas entregas e redução do alcance de políticas públicas”, afirmou a CBIC, em nota, citando impactos em projetos residenciais e de infraestrutura. No Minha Casa, Minha Vida, as projeções da CBIC indicam que a redução da jornada poderá resultar em cerca de 30 mil unidades habitacionais financiadas a menos por ano devido ao encarecimento da produção. Isso corresponde a cerca de 6% da média de contratações anuais do programa no atual mandato. Já a Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) diz que haverá elevação de 5,5% no preço final dos imóveis, segundo estudo feito em parceria com a consultoria Ecconit.
FONTE: O Estado de S. Paulo. – 16 Oct 2026 – JAYANNE RODRIGUES MÁRCIA DE CHIARA COLABOROU CIRCE BONATELLI
