No Rio Grande do Sul, estratégia Chinesa aparece em diferentes setores
A delegação visitou a fabricante de papel e celulose CMPC, a Randoncorp e os parques tecnológicos Tecnopuc e Tecnosinos
“A China tem grande capacidade de produção, infraestrutura, conhecimento técnico, alta tecnologia e modelos de treinamento qualificados. O Brasil se destaca por ser um país muito rico em recursos naturais e renováveis, algo que a China tem alto interesse em obter por meio de trocas comerciais”, afirma Yau Gene Chan, CEO da International Technological University (ITU), universidade com foco em IA no Vale do Silício.
Filho de imigrantes chineses, o executivo nasceu nos Estados Unidos e integrou a delegação chinesa em visita ao Rio Grande do Sul pela atuação como diretor da Tus International Innovation Academy, plataforma de formação de talentos e cooperação internacional da Tus Holdings. “A força de trabalho na China está ficando mais cara. Diversas indústrias estão saindo do país e buscando outros locais. O Brasil pode explorar e absorver essas oportunidades”, afirma.
“O Brasil lembra a China de 25 ou 30 anos atrás, o que representa uma grande oportunidade, com o País adotando modelos de planejamento urbano centralizado e investimentos em infraestrutura”, diz Chan. Ele sugere que o País acompanhe de perto os planos quinquenais da China para identificar quais atividades a China não pretende desenvolver internamente, abrindo espaço para cooperação ou transferência de produção.
O professor Alexandre Uehara, coordenador do curso de Relações Internacionais da ESPM, afirma que a base da relação continua sendo o comércio de commodities, mas o interesse chinês no Brasil se ampliou para indústria, tecnologia e serviços.
Em vez de apenas exportar produtos finais para o mercado brasileiro, as empresas chinesas começaram a investir diretamente em plantas industriais no País. Segundo Uehara, a mudança é motivada por fatores econômicos, geopolíticos e tarifários.
REGRAS DO JOGO. “Apesar de dificuldades internas e políticas, o Brasil é um país estável, que segue as regras do jogo”, afirma. “Diante das questões tarifárias, a China busca alternativas aos Estados Unidos e o Brasil é interessante”, diz.
O professor aponta a indústria automotiva como o exemplo mais visível deste movimento. A BYD e a GWM, por exemplo, decidiram produzir no Brasil, em vez de apenas exportar veículos para o mercado nacional.
A BYD está construindo um complexo em Camaçari (BA), com investimento de cerca de R$ 5,5 bilhões. A GWM assumiu a antiga fábrica da Mercedes-Benz em Iracemápolis (SP) e anunciou um plano de aproximadamente R$ 10 bilhões em investimentos.
“Quando as isenções de importações chegaram ao fim, os chineses viram que tem um mercado relevante para produzir carros no Brasil. Assim, eles conseguem aproveitar o mercado brasileiro e contornar as tarifas”. Uehara vê ainda outro fator: a desaceleração do mercado doméstico chinês aumenta a necessidade de encontrar novos mercados para a capacidade produtiva do país, que é muito grande.
APROXIMAÇÃO. No Rio Grande do Sul, a estratégia chinesa aparece em diferentes setores. Durante a passagem pelo Estado, a delegação visitou a fabricante de papel e celulose CMPC, a multinacional de mobilidade Randoncorp e os parques tecnológicos Tecnopuc e Tecnosinos, além de participar da Semana Caldeira.
Além disso, a delegação ouviu apresentações de startups e empresas brasileiras, conversou com empresários locais e trocou muitos cartões. “No modelo de negócios chinês, a tomada de decisão para investimentos depende da criação de vínculos e confiança”, afirma Rafael Prikladnicki, presidente da Invest RS. “O chinês faz negócios com amigos.”
A Invest RS tenta transformar esses contatos em relações permanentes. Em agosto, a agência inaugurou um escritório de representação em Xangai de olho no potencial dessa aproximação. Em maio de 2026, a Invest RS, viajou a
“A força de trabalho na China está ficando mais cara. Diversas indústrias estão saindo do país e buscando outros locais. O Brasil pode explorar e absorver essas oportunidades” Yau Gene Chan CEO da International Technological University
Pequim para assinar um Memorando de Entendimento (MoU) com a Tus Holding. Um ano antes, a Tecnopuc também assinou um acordo com o grupo chinês.
Até agora, porém, não houve anúncio público de investimento decorrente do acordo.
A China é o principal destino das exportações gaúchas, o que dá ao Estado uma relação comercial já consolidada com o país. A estratégia agora é ampliar essa relação para ciência, tecnologia e indústria.
“O interesse atual da China no Brasil é orientado por segmentos como biotecnologia e segurança alimentar, energia renovável e deep techs”, diz Flavia Fiorin, diretora da Tecnopuc. “Por exigirem investimentos robustos, encontram um encaixe direto com os fundos chineses, que possuem grande volume de capital disponível”, comenta a executiva.
A relação da Tecnopuc com a China envolve missões internacionais periódicas e rodadas de apresentação de projetos.
Segundo Flavia, existem negociações em andamento entre fundos de investimento chineses e empresas de deep techs incubadas pelo parque tecnológico. Ela menciona que, embora ainda não sejam públicas, envolvem grandes volumes de capital.
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