PIB cresce acima da capacidade produtiva há 3 anos, aponta FGV, e potencializa inflação e juros
O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro já cresce acima da sua capacidade produtiva há 12 trimestres consecutivos, ou seja, três anos completos. No quarto trimestre de 2025, o hiato do produto — diferença entre o PIB corrente e o PIB potencial — ficou positivo em 3,4%, segundo cálculos do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), obtidos com exclusividade pelo Estadão/Broadcast.
“Isso tem a ver com a fraca reação do produto potencial. Eu atribuo isso muito à taxa de juros, que desestimula o investimento, assim como as incertezas, que também desestimulam o investimento. Então, o que está acontecendo é que está faltando produto potencial”, ressaltou Claudio Considera, pesquisador do Núcleo de Contas Nacionais do Ibre/FGV.
Depois de passar oito anos operando com ociosidade, a economia brasileira tem rodado acima da sua capacidade máxima produtiva desde o primeiro trimestre de 2023 (ver gráfico).
O PIB potencial é a capacidade produtiva da economia, composta tanto por trabalho quanto por capital, que indica o volume máximo que o País consegue produzir de bens e serviços sem gerar pressões inflacionárias. Assim, cria um círculo vicioso: para combater a inflação, o Banco Central tem de elevar a taxa básica de juros da economia, a Selic.
O hiato do produto está positivo desde o primeiro trimestre de 2023, ou seja, o consumo está, desde então, acima da capacidade produtiva da economia.
Falta investimento
“Tanto o trabalho quanto o capital estão sendo sobreutilizados. Historicamente não ocorreu isso antes. Isso é falta de investimento mesmo, falta de compra de bens de capital”, avaliou o pesquisador do Ibre/FGV.
O crescimento da economia acima da capacidade instalada sugere pressões inflacionárias, com a demanda maior do que a oferta. O estudo mostra que foi a partir do segundo trimestre de 2023 que o PIB efetivo começou a crescer de forma mais robusta, em ritmo superior ao do crescimento do PIB potencial.
O mercado de trabalho robusto e resiliente explica demanda resistente, apesar dos juros que encarecem o consumo .
Segundo o pesquisador, a política monetária contracionista, com a taxa básica de juros em patamar elevado, está impedindo investimentos na expansão da capacidade instalada, mas não está reprimindo a demanda na mesma proporção. “Não está reprimindo a demanda por consumo de maneira geral”, disse Considera.
O mercado de trabalho robusto e resiliente é o que explica essa demanda resistente, apesar da política monetária em patamar contracionista. “A taxa de desemprego está bastante baixa. Teve um pequeno aumento agora, mas ela ainda está baixa historicamente”, acrescentou Considera.
O hiato do produto em terreno positivo permanece elencado pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central como um dos fatores de risco de alta para o cenário inflacionário e as expectativas de inflação.
“Com relação ao balanço de riscos, o Comitê avaliou que os riscos para a inflação, tanto de alta quanto de baixa, permanecem mais elevados do que o usual, perante a indefinição acerca dos conflitos no Oriente Médio. Entre os riscos de alta para o cenário inflacionário e as expectativas de inflação, destacam-se (I) uma desancoragem das expectativas de inflação por período mais prolongado, com horizontes mais longos incorporando impactos potenciais de segunda ordem de restrições de oferta de petróleo e seus derivados; (II) uma maior resiliência na inflação de serviços do que a projetada em função de um hiato do produto mais positivo; e (III) uma conjunção de políticas econômicas externa e interna que tenham impacto inflacionário maior que o esperado, por exemplo, por meio de uma taxa de câmbio persistentemente mais depreciada”, mencionou a ata da reunião do Copom de 28 e 29 de abril, divulgada nesta terça-feira pelo Banco Central.
A cada trimestre, o PIB brasileiro tem renovado patamares recordes, sustentado por um consumo também em níveis históricos. Os dados mais recentes das Contas Nacionais Trimestrais, apurados e divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostraram um avanço de 0,1% no PIB no quarto trimestre de 2025 ante o terceiro trimestre de 2025 fazendo a atividade econômica subir a patamar recorde dentro da série histórica iniciada em 1996.
Pelo lado da demanda, o desempenho foi impulsionado pelo consumo do governo, que também alcançou novo ápice no quarto trimestre de 2025. O consumo das famílias manteve-se próximo ao pico, apenas 0,1% abaixo do auge registrado no segundo trimestre de 2025.
Já a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF, medida dos investimentos do PIB) ainda está 12,6% abaixo do pico alcançado no segundo trimestre de 2013.
Crescimento da economia puxada por crescimento endividado das famílias e crescimento do gastos (populistas) de governo também endividado, nem deveria ser intitulado crescimento econômico, tampouco economia próxima a pleno emprego. Em verdade economia próxima ao abismo.
Fonte: https://www.estadao.com.br/economia/pib-cresce-acima-da-capacidade-produtiva-ha-3-anos-aponta-fgv-e-potencializa-inflacao-e-juros/
