Cenário global leva multinacional a rever ativos

Cenário global leva multinacional a rever ativos

O movimento, contudo, não reflete uma fuga de capital estrangeiro do país, mas uma reavaliação de negócios mais distantes da matriz, sendo alguns deles menos rentáveis

Um ajuste de portfólios de empresas globais tem gerado venda de ativos no Brasil, com o cenário de incertezas ao redor do mundo acelerando processos que antes estavam na gaveta. O movimento, contudo, não reflete uma fuga de capital estrangeiro do país, mas uma reavaliação de negócios mais distantes da matriz, sendo alguns deles menos rentáveis.

Foi nesse contexto de reorganização que a americana General Mills vendeu sua operação no Brasil para o grupo Três Corações, negócio que incluiu marcas tradicionais no país como Yoki e Kitano. O mesmo explica a decisão da Sanofi de vender a Medley, de medicamentos genéricos, uma transação que foi bastante competitiva no passado, para a nacional EMS.

A venda da Suvinil pela Basf seguiu a mesma lógica, de ajuste global.

No ano passado, a japonesa Nippon Steel se despediu da Usiminas, após décadas de investimento na siderúrgica mineira, que passou a se concentrar em suas operações internacionais. A venda teve ainda por trás a briga societária com a Ternium. Antes, o grupo americano AES vendeu sua operação brasileira, tendo um dos motivos a baixa contribuição da subsidiária para os números globais da companhia.

No fim de 2023, a americana UnitedHealth Group (UHG) vendeu a Amil para o empresário José Seripieri Filho, conhecido como Junior no mercado, uma vez que a divisão brasileira de operadora de planos de saúde representava fatia pouco relevante da receita da companhia.

“Existe um ajuste de portfólios alinhado a um foco maior ao negócio global”, afirma o responsável pela área de fusões e aquisições do Santander Brasil, Thiago Rocha. Segundo ele, o ambiente de incertezas e de juros mais altos ajudam a acelerar esses processos. Ele aponta que, em ambiente de juros baixos, na contramão, empresas conseguem “segurar por mais tempo algumas apostas”. “O juros é um elemento importante, mas não o causador, mas sim o catalisador desse processo”, afirma.

Rocha frisa, contudo, que esse movimento não significa saída de estrangeiros do Brasil e reforça que o apetite segue forte em ativos brasileiros. Nas operações de M&As de ativos locais, os “gringos” seguem participando dos processos e estavam na ponta compradora de boa parte das transações já concluídas neste ano.

Assim, a explicação para a venda de ativos no Brasil por esses grupos é outra. Fontes de mercado afirmam que para algumas multinacionais a operação no Brasil acabou ficando pequena e que, por isso, faz sentido o desinvestimento. No geral, trata-se de bons ativos que geram processos competitivos, com muitos grupos locais participando dos processos.

Leonardo Cabral, chefe do banco de investimento do Santander no Brasil, afirma que grupos brasileiros buscam, nesses momentos, remodelar o portfólio, muitas vezes para voltarem o negócio para áreas de maior rentabilidade.

Por isso, algumas operações estão sendo vistas em empresas não alavancadas – Votorantim vendeu a fabricante de alumínio CBA para a chinesa Chinalco e a anglo-australiana Rio Tinto. A holding da família Ermírio de Moraes elevou as apostas em saúde, com o aumento de participação da farmacêutica Hypera.

O sócio da Aucta Capital, Marcos Ayres, afirma que empresas também podem identificar ativos que foram comprados em um momento de expansão do negócio. “Foi desprezada a complexidade de se fazer integração”, diz. Em alguns casos, aponta, a companhia percebe que as sinergias que foram antes mapeadas não foram capturadas.

Pedro Muzzi, responsável por fusões e aquisições do Goldman Sachs no Brasil, afirma que dentre as companhias locais, o período prolongado de juros altos tem pressionado empresas mais alavancadas, com parte buscando fôlego por meio da venda de ativos.

Essa tese tem movimentado diversos processos de fusões e aquisições, como a venda de ativos pela CSN, de Benjamin Steinbruch e a operação no Sul do país da operadora de saúde Hapvida.

Fonte: Valor Econômico
Por Fernanda Guimarães e Mônica Scaramuzzo — De São Paulo
04/05/2026 05h02 Atualizado agora