A economia sob denso nevoeiro

A economia sob denso nevoeiro

O primeiro trimestre chega ao fim e, com ele, a saída do ministro Fernando Haddad no comando da Fazenda. Ele deixa na economia uma mistura desarrumada de coisas boas e de coisas ruins.

Entre as coisas boas estão o desemprego nos mais baixos níveis históricos, de 5,1% da força de trabalho – fator que também tem aumentado o custo da mão de obra; a inflação sob relativo controle, projetada para a altura dos 4,0% ao final do ano, beneficiada pela valorização do real (queda do dólar), que barateou os produtos importados; a perspectiva de um excelente resultado do comércio exterior, com superávit provável próximo dos US$ 80 bilhões; e, vá lá, o PIB apontando para um avanço de 1,6%, graças, outra vez, ao bom desempenho do agro, como projetou ontem o Relatório de Política Monetária do Banco Central.

Entre os sinais desapontadores estão a deterioração das contas públicas (déficit primário da ordem de 0,5% do PIB), apesar dos recordes de arrecadação, e o crescimento da dívida pública bruta para acima de 81% do PIB; juros reais nas alturas dos 14,75% ao ano; a indústria de transformação em persistente definhamento; e um pesado endividamento de quase 80% das famílias, a comprometer o consumo futuro.

O trimestre termina imerso em denso nevoeiro de incertezas, as que já vinham aí mais as provocadas pela guerra e pelo choque do petróleo, que não têm prazo para acabar.

A política econômica entrou há meses em modo eleitoral. O presidente Lula não parece ter escrúpulos em deixar que se deteriorem os sinais vitais da economia se entender que precisa comprar a boa vontade do eleitor, com pacotes sucessivos de bondades. A criação de subsídios aos combustíveis é o último lance dessa política populista. Deverá vir acompanhado por benefícios destinados a contornar os problemas produzidos pelo alto endividamento do consumidor. Falta saber o que não fará o governo para atender às pressões do agronegócio, dos caminhoneiros e do consumidor comum, para que o Tesouro assuma parte da disparada dos custos dos fertilizantes, dos fretes e dos alimentos.

As pesquisas de opinião emitem sinais de que essas operações de caça à boa vontade do eleitor já não produzem o efeito desejado. Um sentimento geral de cansaço parece se sobrepor a eles. E isso pode ter outra consequência perversa, pode induzir o governo Lula a obrigar o Tesouro a colocar ainda mais em risco o nível de saúde das contas públicas.

Processos dessa natureza têm um custo conhecido: o de amontoar uma herança maldita para a administração que começa em 2027, num momento em que a economia mundial e especialmente os países em desenvolvimento ainda poderão estar pagando as contas do choque do petróleo e da desorganização dos fluxos de produção e distribuição.

Quem viver verá.

FONTE: O Estado de São Paulo – 27/03/2026 – B2