Guerra eleva custos, pressiona cadeias produtivas e acende alerta
A guerra no Oriente Médio, que provocou até aqui a disparada da cotação do petróleo e o encarecimento do frete, começa a ter desdobramentos nas cadeias de produção de alguns setores da indústria.
Os impactos atingem não só empresas que dependem diretamente de insumos que trafegam pelo Estreito de Ormuz, bloqueado pelo Irã, como petróleo e gás natural. A indústria farmacêutica, por exemplo, que importa 92% dos princípios ativos usados na produção de medicamentos, já sente os impactos nas operações logísticas internacionais.
Desvios de rotas têm representado aumento de 25% em dólar no custo de transporte. Isso, sem contar a variação do câmbio, que pode ampliar ainda mais as despesas dos fabricantes. A seguir, o impacto do conflito em sete diferentes setores:
1. Indústria farmacêutica
Uma das grandes preocupações para a indústria farmacêutica por causa da guerra está nas embalagens plásticas. Se o preço do petróleo continuar elevado, a perspectiva é de que os fabricantes tenham de desembolsar mais pelas embalagens dos medicamentos.
Mas essa pressão de custos das embalagens ainda não chegou às indústrias, pondera Nelson Mussolini, presidente executivo do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma). “Não estamos sentindo isso neste momento, mas, se a guerra durar mais tempo e o petróleo continuar subindo, provavelmente ( o aumento de custos) vai ser repassado para as embalagens.”
O desafio para o setor farmacêutico, que tem preços controlados pelo governo e pode reajustá-los só uma vez por ano, está em como absorver as pressões de custos extras.
2. Calçados
Na indústria de calçados, os fornecedores já sinalizaram que haverá necessidade de aumentar preços nos próximos dias. Segundo o gestor de Mercado Internacional da Associação Brasileira das Empresas de Componentes para Couro, Calçados e Artefatos (Assintecal), Luiz Ribas Júnior, quando o conflito estourou os fabricantes de componentes tinham estoques. “Não houve um repasse imediato.” Mas, à medida que o tempo foi passando, os estoques foram diminuindo.
Nas próximas vendas, Ribas Júnior diz que os preços de componentes fabricados a partir de matérias-primas derivadas do petróleo e importadas devem ser reajustados. Dependendo do tipo do calçado, os componentes que usam derivados de petróleo ou que tenham os preços atrelados à commodity representam entre 25% e 30% dos custos.
3. Indústria química
A indústria química informa, por meio de nota, que não há risco de desabastecimento por causa do conflito. Atualmente, segundo a Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), as fábricas no País funcionam com ociosidade de cerca de 40% da sua capacidade de produção.
De acordo com a entidade, isso representa “uma reserva estratégica de disponibilidade com garantia de fornecimento para toda a indústria de transformação, em complemento ou até mesmo em substituição aos produtos importados, cujos principais mercados fornecedores são Estados Unidos, China e até países da nossa região como México, Colômbia e Argentina”.
4. Eletroeletrônicos
Entidades que representam as indústrias de produtos eletroeletrônicos (Eletros e Abinee) disseram que não há informações sobre altas de custos em razão da guerra. No entanto, fontes do setor dizem que, a médio prazo, o setor poderá ser impactado. Isso porque boa parte dos componentes é importada da Ásia por meio de frete marítimo. Além disso, derivados do petróleo, como o plástico, podem ter os custos pressionados.
5. Aviação
A alta do petróleo acendeu um sinal de alerta para o setor aéreo, com a possibilidade de impactos principalmente na aviação regional, dificultando o avanço de planos de abertura de rotas no País.
“Esses mercados já têm demanda menor e são mais sensíveis. Uma pressão pode inviabilizar destinos”, afirma o presidente da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), Juliano Noman. O impacto vai além do preço das passagens, que também tende a ser pressionado pelo aumento de custos.
O combustível responde por cerca de um terço dos custos das aéreas. A pressão cambial é outro ponto de atenção, já que a maior parte das despesas é dolarizada, enquanto a receita é em real.
A Abear defende a adoção de iniciativas para mitigar os impactos da alta do combustível. O querosene de aviação (QAV) ficou de fora da medida anunciada pelo governo para subsidiar o diesel e amortecer os efeitos da alta do petróleo. Para o presidente da associação, incluir o combustível do setor na iniciativa ajudaria a reduzir a volatilidade de custos.
6. Automóveis
Os impactos para a indústria automobilística, se a guerra perdurar, devem estar relacionados principalmente ao aumento dos custos logísticos. “Aquilo que recebemos no País fica mais caro e podemos perder ainda mais competitividade”, afirma o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Igor Calvet.
O conflito se soma também às incertezas tarifárias, com a política de guerra comercial do presidente americano, Donald Trump. “Isso causa instabilidade não só na política comercial bilateral, mas em todo o contexto da nossa cadeia de valor ao longo do mundo, porque nossas empresas são integradas globalmente”, diz.
7. Logística
O setor de logística é um dos mais afetados pela guerra e o que mais repassa as suas dificuldades para o restante da economia. Cerca de metade dos custos das empresas do setor está atrelada ao diesel, diz o presidente da Associação Brasileira de Logística (Abralog), Pedro Moreira.
Dados do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT) apontaram alta desde o início da guerra até o dia 16 de março de 19,71% no diesel S10 comum. Esse aumento de custos, no entanto, não tem sido repassado por completo pelos transportadores. “O repasse de frete tem ficado entre 4% e 6%, que é quanto o mercado está absorvendo. Tem gente pedindo de 10% a 15%, mas isso não tem cabimento.”
O setor se queixa que vem sofrendo reduções de lucratividade, e há a possibilidade de uma terceira onda de falências de empresas, diz o executivo. A expectativa é de que o pacote do governo para conter os preços do diesel tenha efeito.
FONTE: O Estado de São Paulo – 24/03/2026 – B2
