CNI fala em prejuízo de R$ 178,8 bilhões; Ipea diz que custo pode ser absorvido
O governo diverge da indústria e do agronegócio em relação ao possível impacto na economia da redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais e o fim da escala 6×1. Enquanto o Executivo alega que o custo pode ser absorvido pelas empresas e que a “narrativa de quebradeira” é repetida e falha, diferentes setores da economia calculam prejuízos bilionários.
A Confederação Nacional da Indústria (CNI), por exemplo, afirma que a elevação das despesas chegaria a R$ 178,8 bilhões nos custos de empregados formais na indústria. Outros problemas apontados são a redução da produção, perda de competitividade, retração do PIB, dificuldade de adaptação para micro e pequenas empresas e a elevação da inflação e da informalidade.
A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) também divulgou nota em que expressa preocupação com a forma como o debate vem sendo conduzido. “O engessamento da jornada por via constitucional, sem considerar as especificidades de cada setor, compromete a autonomia de empresas e trabalhadores”, diz Paulo Skaf, presidente da Fiesp.
A medida, sustenta a Fiesp, impacta “severamente” a sustentabilidade de pequenas e médias empresas, devendo gerar retração econômica, fechamento de postos de trabalho formais e o avanço da informalidade, o que contraria diretamente o propósito original da proposta.
Já a Abimaq, que representa os fabricantes de máquinas e equipamentos, citou o estudo da CNI ao também manifestar preocupação com a proposta.
O cálculo apresentado no estudo da CNI considera uma eventual redução legal da jornada para 36 horas semanais, no modelo 4×3, sem redução proporcional dos salários. O impacto representaria um acréscimo de 25,1% em relação ao custo com pessoal, tendo como base valores de 2023.
Conforme o estudo, caso optem por contratar novos empregados para manter o nível de produção, as empresas terão mais despesas com salários, encargos legais e benefícios, como plano de saúde, previdência privada, auxílio-creche, transporte e alimentação.
AGRO. No agronegócio, uma análise preliminar compartilhada pelo setor produtivo e apresentada à Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) aponta que, se a escala 6×1 for adotada, há potencial aumento de custo de mão de obra de 20% a 25% para o setor e risco de perda de vagas de 1% a 2%.
Setor produtivo diz que seria ideal ter alternativas para atender aos diversos setores da economia
A população ocupada no agronegócio atingia 28,58 milhões de pessoas no terceiro trimestre de 2025, o que representa 26,4% do total do número de pessoas empregadas no País, mostram dados do Boletim Mercado de Trabalho no Agronegócio, elaborado pelo Cepea em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
A FPA se diz favorável ao debate do tema da redução da escala de trabalho, mas vê com “séria preocupação” a discussão açodada em ano eleitoral e o risco de oneração do setor produtivo. Para a frente, são necessárias condições para discussão de alternativas em relação à escala.
“Banco de horas, horas trabalhadas, buscar algum critério que consigamos, além de resolver a questão do empregador, obviamente resolver a questão do trabalhador para ele tomar a decisão de quanto ele quer trabalhar, como ele quer fazer, e principalmente não perder o posto de trabalho”, afirmou o presidente da FPA, deputado federal Pedro Lupion (Republicanos-PR).
IMPACTO. O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, criticou ontem o discurso de que a redução da jornada vai trazer prejuízos à economia. “Quando se fala em distribuir renda, há uma reação grande de muita gente poderosa dizendo que isso vai destruir a economia brasileira. Que vai gerar desemprego. Que nós vamos perder competitividade. A mesma coisa se fala de quando vai discutir a redução da jornada de trabalho ou que vai acabar com a 6×1. Parece que o mundo vai acabar. Mas foi assim também que o Getúlio ( Vargas, ex-presidente) criou o salário mínimo”, disse Marinho, durante evento de 90 anos do salário mínimo.
Resolução do PT publicada na semana passada afirma que o partido do presidente da República irá implementar o fim da escala 6×1, sem redução de salário, “porque quem sempre defendeu o direito ao trabalho sabe que defender o direito ao descanso é parte da mesma luta por dignidade, saúde mental, convivência familiar e qualidade de vida”.
Na sexta-feira passada, em evento do PT, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse que a escala 6×1 não tem impacto fiscal, diferentemente da tarifa zero para o transporte público. “Preciso desenhar um programa que tenha consistência. Se não tiver consistência, vai ter de voltar atrás”, disse, em referência à tarifa zero. O titular da Fazenda tem defendido que a redução da jornada de trabalho é um tema que tem sido debatido em muitos países.
À militância petista, o ministro citou o aumento da isenção do Imposto de Renda para salários até R$ 5 mil como um exemplo de projeto que atende aos anseios da população, mas que foi feito de forma responsável, com fontes de compensação. Ele disse ter escutado que se tratava de uma promessa de campanha do presidente Lula, mas pediu tem
“O engessamento da jornada por via constitucional, sem considerar as especificidades de cada setor, compromete a autonomia de empresas e trabalhadores”
Paulo Skaf
Presidente da Fiesp
“(Temos de) Buscar algum critério que consigamos, além de resolver a questão do empregador, resolver a questão do trabalhador, a decisão de quanto ele quer trabalhar”
Pedro Lupion (Republicanos-PR) Presidente da FPA
“Quando se fala em distribuir renda, há uma reação grande. A mesma coisa se fala de quando vai acabar com a (escala) 6×1. Parece que o mundo vai acabar”
Luiz Marinho
Ministro do Trabalho
“(O fim da) Escala 6×1 não tem impacto fiscal, diferentemente da tarifa zero (para o transporte público). Preciso desenhar um programa que tenha consistência”
Fernando Haddad
Ministro da Fazenda
“Os custos de uma eventual redução da jornada de trabalho seriam similares aos impactos observados em reajustes históricos do salário mínimo no Brasil”
Ipea
Trecho de nota sobre estudo sobre o fim da escala 6×1
po para “fazer direito”.
ESTUDO. O Ministério da Fazenda foi procurado para se pronunciar sobre os impactos do fim da escala 6×1 sobre a economia. Por meio de nota, a assessoria de imprensa do órgão apenas recomendou que a reportagem consultasse o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) sobre o tema.
Um estudo divulgado pelo Ipea ontem afirma que o impacto da redução da jornada para 40h semanais é similar ao de recorrentes aumentos no salário mínimo. De acordo com o estudo, o aumento do custo médio do trabalho de um celetista em uma jornada de 40h seria de 7,84%. O resultado ponderado de jornada de 40h, entretanto, indica efeitos reduzidos nos custos totais.
Por isso, argumentam os autores, a maioria das empresas conseguiria absorver a mudança. “Os custos de uma eventual redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais seriam similares aos impactos observados em reajustes históricos do salário mínimo no Brasil, o que indica uma capacidade de absorção da medida pelo mercado de trabalho”, escreveu o Ipea em nota.
Segundo o estudo, 31,8 milhões dos 44 milhões de trabalhadores celetistas da Rais (relatório oficial de vínculos empregatícios) de 2023 têm jornada de 44h semanais. Em 31 dos 87 setores analisados, mais de 90% dos trabalhadores têm jornadas acima de 40h semanais.
Grandes empregadores, como a indústria de produtos alimentícios e o comércio atacadista e de veículos, registrariam impacto inferior a 1% nos custos. Cerca de 10 milhões de vínculos estão em setores nos quais o aumento do custo da mão de obra supera 3% do custo total da atividade, e aproximadamente 3 milhões em setores com impacto superior a 5%.
Corroborando a visão de Marinho, os autores da pesquisa dizem que o aumento do custo do trabalho não implicaria diretamente redução da produção ou aumento do desemprego.
FONTE: O Estado de São Paulo – 11/02/2026
