Um presente para a China
Durante mais de um ano, a estratégia de Donald Trump para a América Latina rendeu alguns resultados inegáveis. Washington passou a interferir abertamente em eleições alheias: condicionou o socorro financeiro à Argentina à vitória de Javier Milei nas eleições legislativas, ameaçou não trabalhar com o governo de Honduras caso o direitista Nasry Asfura perdesse e declarou “apoio total” a Abelardo de la Espriella no segundo turno colombiano. Em setembro, Trump se gabou de que todos os candidatos haviam vencido. A direita venceu sete eleições consecutivas no continente.
O Brasil mostra o outro lado dessa aposta. No ano passado, Trump impôs tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, justificando a medida com o processo contra Jair Bolsonaro; cassou vistos de ministros do STF e impôs sanções a Alexandre de Moraes com base na Lei Magnitsky.
O alívio do fim do ano, quando Trump recuou nas tarifas sobre alimentos e tirou Moraes da lista de sanções, durou pouco. Depois que a Suprema Corte dos EUA derrubou o tarifaço, em fevereiro, Washington voltou à carga em julho com duas novas sobretaxas.
Em agosto, o Departamento de Estado revogou o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti,
em retaliação à demora do Itamaraty em aprovar Daniel Perez, indicado por Trump para a embaixada em Brasília. A Casa Branca havia anunciado o nome e levado a indicação ao Senado antes de consultar o governo brasileiro, rompendo a praxe diplomática.
Depois da derrota, tudo indica que a viagem de Flávio Bolsonaro aos EUA foi organizada com a ajuda de Jason Miller, ligado à comunicação de Trump, que até agora não reconheceu a reeleição de Lula. Já no dia seguinte à votação, afirmou, sem apresentar provas, que o pleito pareceu fraudado.
Enquanto a direita vencia, o custo desse intervencionismo ficava escondido. A vitória de Lula o expõe: a relação entre as duas maiores democracias das Américas fica congelada. A primeira condição para uma relação normal é que Washington reconheça o resultado das urnas.
Sem isso, Brasília não tem por que receber Daniel Perez, e uma conversa entre os presidentes deve estar fora de cogitação. Lula, que passou a campanha cobrando que Trump não se metesse nas eleições brasileiras e venceu defendendo a soberania nacional, não tem nenhum incentivo para abaixar a cabeça agora.
Nesse cenário, temas em que havia espaço para avanços, como a cooperação contra o crime organizado, minerais críticos e data centers, devem ficar parados. O quadro pode piorar depois das eleições nos EUA. Se Trump perder a maioria na Câmara, ele ficará ainda mais próximo da condição de “pato manco”, expressão usada para o presidente cujo poder se esvai na reta final do governo. Nos bastidores da capital, porém, já se fala num “pato raivoso”, cuja frustração tende a extravasar na política externa, inclusive na América Latina.
Quem ganha com isso é a China. Dois dias após o segundo turno, Xi Jinping propôs a Lula levar a parceria entre os dois países a um novo patamar. No primeiro semestre, as exportações brasileiras para a China cresceram 21,9%, e as vendas para os EUA caíram 13%.
Para Washington, é um desperdício: nenhum outro país tem tanto capital investido diretamente no Brasil quanto os EUA, US$ 245 bilhões em 2024, segundo o Banco Central.
O efeito tampouco se limita ao Brasil. Candidatos de esquerda e de oposição que disputarão eleições presidenciais na região devem observar o êxito de Lula e terão mais incentivos para adotar um discurso de defesa da soberania. Há eleições na Guatemala (junho de 2027), na Argentina (outubro de 2027), no Paraguai (abril de 2028) e na República Dominicana (maio de 2028).
Não há sinal de que Washington vá corrigir o rumo. Como observou o ex-cônsul dos EUA em São Paulo Ricardo Zúñiga, Trump recebe informações sobre o Brasil quase sempre pelo filtro da família Bolsonaro. Por isso, o esforço brasileiro deve se voltar a outros interlocutores, como democratas, republicanos moderados, importadores de produtos brasileiros e sociedade civil.
O objetivo é construir salvaguardas fortes para impedir que a relação descarrile mesmo quando há profunda divergência ideológica entre os governos, algo que fará diferença a partir de janeiro de 2029. Até lá, a estratégia de Trump para o Brasil seguirá sendo um cenário dos sonhos para Pequim.
Estratégia de Trump para o Brasil seguirá sendo um cenário dos sonhos para Pequim
