Preço do aço sobe, mas abaixo do que o setor esperava após medidas
Governo aplicou, em fevereiro, taxas extras para aumentar competitividade frente à indústria chinesa
Entre fevereiro e o início de setembro, alguns tipos de aço registraram altas relevantes de preço, em meio à implementação pelo governo federal de medidas antidumping (taxas extras para coibir importações vendidas a preços considerados desleais) contra produtos chineses. Ainda assim, embora os preços dos produtos siderúrgicos tenham subido, as altas ficaram abaixo do que o setor pretendia.
Para a diretora associada da área de preços na América Latina da S&P Global, Adriana Carvalho, as medidas implementadas pelo Brasil em fevereiro deste ano sobre importações chinesas de aço laminado a frio e aço revestido ou galvanizado ajudaram a sustentar uma recuperação gradual dos preços domésticos. “O impacto foi mais perceptível nos produtos diretamente afetados pelas tarifas, reduzindo a competitividade do material importado e ampliando o espaço para reajustes por parte das usinas nacionais”, afirma.
Os valores cobrados pelas usinas no aço laminado a frio, usado na indústria automobilística e na produção de eletrodomésticos, subiram cerca de 8%, enquanto no aço galvanizado, usado, por exemplo, em tubulações, houve avanço de mais de 7%, de acordo com dados da S&P Global. As bobinas laminadas a quente, relevantes para a produção de máquinas e equipamentos, também se valorizaram no período, beneficiadas indiretamente por um ambiente mais favorável aos produtores domésticos de aço plano.
DEMANDA MODERADA. Os aumentos anunciados pelas siderúrgicas, no entanto, foram implementados apenas parcialmente. Isso porque a demanda permaneceu moderada em diversos setores consumidores desses produtos, limitando a capacidade de repasse integral dos reajustes. O consumo aparente nacional de produtos de aço foi de 17,4 milhões de toneladas no acumulado até agosto de 2026 – queda de 4,2% ante o mesmo período de 2025, segundo dados divulgados na terçafeira pelo Instituto Aço Brasil.
O presidente executivo do Instituto Nacional dos Distribuidores de Aço (Inda), Carlos Jorge Loureiro, avalia que um dos fatores que frearam as tentativas de aumento de preço por parte dos produtores foram os estoques maiores na distribuição. Para ele, os estoques subiram, entre outros fatores, pela perspectiva de alta de preços.
Loureiro cita ainda que os reajustes foram limitados por um mercado enfraquecido, principalmente pela importação de produtos acabados que usam aço. No mesmo sentido, a responsável por precificação de aço na América Latina da Argus, Isabel Filgueiras, explica que as medidas antidumping praticamente dobraram os custos de importação da China, mas os juros elevados enfraqueceram a demanda de diversos setores consumidores de aço. Como resultado, os preços subiram aquém das expectativas desde a medida aplicada em fevereiro. “Se as usinas tivessem conseguido implementar 100% dos reajustes, os preços de bobina a frio e aços revestidos deveriam estar pelo menos 10% acima do que vemos hoje”, afirma.
Ela lembra ainda que a concorrência importada continuou existindo, embora em menor escala. “Importadores passaram a trazer material de outras origens, como Vietnã e Coreia do Sul, que, apesar de terem um preço acima dos chineses, ainda são fonte de entrada de importados no mercado brasileiro”, afirma.
A bobina laminada a quente também tem acumulado altas de preços. De acordo com dados da S&P, houve alta de 11,7% na média no terceiro trimestre de 2026 (considerando dados até o início de setembro) ante igual período de 2025. A diretora da S&P, Adriana Carvalho, avalia que essa alta perdeu força, com a média de preços avançando 0,7% entre o segundo e o terceiro trimestre deste ano.
Ela diz que as medidas de defesa comercial melhoraram a posição competitiva das usinas brasileiras frente às estrangeiras, mas, assim como nos demais produtos de aço, a demanda permaneceu como o principal limitador para os preços.
POSIÇÃO DO SETOR
Do lado de quem representa um dos principais mercados consumidores de bobinas a quente, o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), José Velloso, diz que os produtos nacionais de máquinas já compram aço com preços cerca de 50% mais caros do que concorrentes estrangeiros.
De acordo com dados da Abimaq, a participação dos equipamentos importados no consumo aparente nacional de máquinas passou de 45,7% para 47,4% entre janeiro e julho de 2025 e o mesmo período deste ano. Segundo Velloso, em 2013 a indústria nacional detinha cerca de 70% do mercado.
O custo do aço é responsável por cerca de 9,5% dos custos da produção de máquinas no Brasil. O superintendente da Abimaq, Marcos Perez, diz que o freio imposto aos aumentos de preços na bobina quente por uma demanda desaquecida deve ser visto como efeito das medidas de proteção. “É uma falácia dizer que o mercado interno tem vendido menos aço porque há muita importação de máquinas, quando a origem de tudo começou com o aumento das tarifas (de importação de aço).”
“Se as usinas tivessem conseguido implementar 100% dos reajustes, preços de bobina a frio e aços revestidos deveriam estar pelo menos 10% acima do que vemos hoje” Carlos Jorge Loureiro Presidente executivo do Inda.
A Abimaq ainda discorda da metodologia proposta para o mecanismo antidumping de bobinas a quente, que se baseia no preço de mercado dos Estados Unidos, considerado muito elevado e que já convive, inclusive, com altas tarifas de importação. Para a associação, o mais correto seria estabelecer um preço de comparação do produto chinês – para o qual a medida é solicitada – com o preço praticado em mercados como Índia ou Coreia do Sul.
FONTE: O Estado de S. Paulo. – 18 Setembro 2026. – TALITA NASCIMENTO
