O impacto das mudanças no varejo

O impacto das mudanças no varejo

Nesta onda de quebras no varejo, os juros altos vêm sendo escolhidos como bode expiatório: “faliu porque os juros escorchantes asfixiaram a empresa”.

É preciso começar por admitir que os juros, nos níveis em que estão no Brasil, são mesmo asfixiantes. E nisso cumprem em parte o objetivo de conter a demanda a fim de empurrar a inflação para dentro da meta.

Mas não são a causa principal da quebradeira do varejo. Melhor reconhecer que há importantes transformações em curso, que os administradores – e não apenas os do varejo – não entenderam e por isso ficaram sujeitos a trombadas.

De uns tempos para cá, o varejo vem enfrentando firme tendência à redução dos ganhos financeiros.

No Brasil, isso tem a ver com aquela prática, velha de guerra, de vender a prestações “sem juros”. É uma “conversa para boi dormir”. O comerciante mete os juros no preço, não dá desconto na compra à vista, e o comprador acaba por engolir a trapaça. Esse ganho financeiro disfarçado tende a esconder ineficiências operacionais da empresa.

Três fatores estão convergindo para reduzir esse ganho financeiro. O primeiro deles é o comércio eletrônico (e-commerce). Os produtos são oferecidos na internet, sob forte concorrência, a preços inferiores aos oferecidos pela loja, porque não embutem a tal isenção de juros nas prestações a perder de vista.

É o que ajuda a explicar o crescimento das vendas online. O e-commerce ainda equivale a cerca de 10% de todo o varejo nacional, mas está disparando. Apenas neste primeiro semestre, aumentou 17% em comparação com o movimento do primeiro semestre de 2025.

Só isso já muda muita coisa na administração do varejo: muda o manejo de estoques, a logística, transforma a loja em showroom, exige novas qualificações do pessoal e vai por aí.

Até mesmo nas favelas, onde o furgão de entregas não entra, as comunidades estão se organizando para receber e redistribuir encomendas em postos conhecidos como o “bar de baixo”, o salão da cabeleireira, a “venda do Marcão” ou o barraco do vendedor de gás.

Outro fator que derruba as “compras a prazo sem juros” é o Pix. Os varejistas já perceberam que a concorrência passou a dar descontos, na medida em que a dispensa dos cartões e da maquininha reduz os custos.

E há a isenção da “taxa das blusinhas”. Se dá para importar isentos de Imposto de Importação compras de até US$ 50 e receber em casa, roupas, produtos de beleza, brinquedos e tantas coisas mais, por que bater pernas pelo comércio?

Quando as coisas mudam e o varejista não muda, as coisas mudam o varejista.

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