Pra que trabalhar?

Pra que trabalhar?

“Filho de pedreiro não quer mais ser pedreiro, filho de mestre de obras não quer mais ser mestre de obras”, queixa-se Luciano Amaral, presidente da Benx, construtora que se dedica à produção de apartamentos de luxo. E as reclamações vão se repetindo no setor.

Assim, a escassez de mão de obra, “cada vez mais preocupante”, vai sendo identificada no Brasil não apenas na construção civil mas em cada vez mais ocupações.

No caso da construção civil, a consequência imediata é a instauração de um assédio implacável sobre o canteiro de obras do concorrente para arrebanhar pessoal. É atitude que lembra o que vinha acontecendo no Parque Buenos Aires, em São Paulo, onde certas mães de família com filhos pequenos observavam o comportamento das babás para, em seguida, atraí-las com reforço salarial, para trabalhar para elas.

Por que essa súbita escassez num país que tem, historicamente, grande disponibilidade de mão de obra? Na construção civil, isso pode ser explicado em parte pela expansão do programa Minha Casa, Minha Vida e pelo crescimento das obras públicas na reta final imediatamente anterior às eleições de outubro.

Também se deve, em alguma medida, à grande transformação do mercado de trabalho, onde ganham i mportância a ocupação autônoma e o uso intensivo de aplicativos, que afastam o trabalhador das atividades braçais.

Também não se pode ignorar o impacto da mais farta distribuição de benefícios sociais, consequência da distribuição das chamadas bondades eleitorais: é o Bolsa Família, a concessão de aposentadorias mesmo a quem não contribuiu para isso, e a grande expansão dos Benefícios de Prestação Continuada (BPCs), que garantem salário mínimo mensal a pessoas deficientes de qualquer idade que comprovem baixa renda. “Se compro na feira feijão, rapadura, pra que trabalhar?”, diz uma composição musical de Olegário Mariano.

Mas isso não explica tudo. Na Europa, onde não há esse distributivismo, a escassez começou há mais de uma década. Os proprietários rurais da França e da Itália estão envelhecendo sem que seus filhos se disponham a seguir a mesma vida dura sem futuro.

Boa pergunta está em saber se a pretendida revogação do regime de trabalho 6×1, que o governo quer ver aprovada rapidamente, não irá agravar essa falta de pessoal.

Como, no Brasil, esse é um fenômeno não apenas conjuntural, segue-se que será inevitável a adoção pelas empresas de mais tecnologia dispensadora de mão de obra e, na construção civil, de mais pré-fabricados. A escassez pede mais treinamento e mais instrução que garantam aumento da produtividade da mão de obra.

Mas são coisas que levam tempo, decisão política e enfrentamento da oposição dos dirigentes sindicais, que querem mais o crescimento de suas bases, e não contrário.

Fonte: O Estado de São Paulo – B2 – 05/04/2026