Congresso negocia desoneração em troca de redução de jornada

Congresso negocia desoneração em troca de redução de jornada

Grupos do Congresso defendem nova desoneração da folha de pagamentos de empresas como alternativa para compensar o aumento de custos aos empregadores, diante do avanço da discussão para a mudança na jornada de trabalho. Desde o ano passado, após disputa no Legislativo e no Judiciário, uma reoneração gradual da folha foi implementada. A retomada do benefício aos setores que mais empregam é defendida pela Frente Parlamentar Mista do Empreendedorismo e pela Frente Parlamentar do Livre Mercado. A discussão do fim da jornada 6×1 ganhou impulso desde que o governo Lula a abraçou como bandeira eleitoral. A mudança esbarra, porém, na baixa produtividade da economia nacional.

Com o avanço dos debates no Legislativo sobre o fim da escala 6×1 – que prevê seis dias de trabalho e um de descanso –, grupos no Congresso propõem a adoção de uma nova desoneração da folha de pagamentos de empresas como alternativa para compensar o aumento de custos aos empregadores com a eventual mudança na jornada. Como mostrou o Estadão, essa mudança na jornada esbarra num velho entrave da economia nacional: a baixa produtividade.

A retomada do benefício aos setores que mais empregam é defendida pela Frente Parlamentar Mista do Empreendedorismo (FPE) e pela Frente Parlamentar do Livre Mercado (FPLM). A alternativa, porém, não é unanimidade e é considerada controversa por outras frentes do setor produtivo. Procurado, o Ministério da Fazenda não se manifestou.

O tema gerou um grande embate na primeira metade do governo Lula 3, com um posterior acordo que previu uma reoneração gradual de 2025 a 2027 (mais informações na pág. B2).

Ao Estadão/Broadcast, o presidente da FPE, deputado Joaquim Passarinho (PL-PA), afirmou que,

Divergências

Proposta de compensação não é unânime e é vista como controversa por outras frentes

inicialmente, é favorável à redução da jornada de 44 para 40 horas, sem alterar os dias trabalhados. Segundo o parlamentar, esse formato permitiria que setores que não podem dispensar o sábado e o domingo recorram a escalas de trabalho entre os funcionários, sem novas contratações apenas para o fim de semana.

“É muito romântico dizer: ‘Vou diminuir os dias de trabalho, porém, isso vai aumentar a produtividade’. Me diga como é que um motorista de ônibus vai aumentar a sua produção. Ele vai correr mais? Como um piloto de trem, um frentista, vai produzir mais? Há atividades que, mesmo mais descansado, o cara não vai produzir mais.”

Segundo ele, esse modelo tornaria a adaptação das empresas mais fácil. Para o presidente da FPE, composta por 250 parlamentares, caso não haja acordo para não mexer nos dias trabalhados, é preciso pensar em contrapartidas aos empregadores.

PROPOSTA. Uma das propostas em debate é a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 1/2026, do senador Laércio Oliveira (PP-SE), que substitui a contribuição previdenciária patronal sobre a folha de pagamentos por uma nova cobrança sobre o faturamento bruto das empresas.

Em manifesto divulgado na semana passada, a FPLM disse considerar “elevada” a atual tributação sobre a folha de pagamentos e defendeu a discussão proposta na PEC de Oliveira. “Mudanças que aumentem o custo de contratação não podem ser aprovadas sem enfrentar o problema estrutural da elevada tributação sobre a folha”, diz a nota da frente.

Desoneração da folha volta à pauta do STF; há 3 votos para derrubar lei

O Supremo Tribunal Federal vai retomar nesta semana o julgamento de ação movida pelo governo contra lei aprovada em 2023 que prorrogou a desoneração da folha de pagamentos de 17 setores intensivos em mão de obra e de municípios. Há três votos para derrubar a lei, mas sem afetar o acordo firmado entre governo e Congresso posteriormente, que previu a reoneração gradual entre 2025 e 2027.

O ministro Alexandre de Moraes pediu vista (mais tempo para análise) em outubro, e na semana passada devolveu o processo para julgamento. O caso foi pautado para a sessão virtual que será realizada entre esta sexta-feira e 6 de março.

O relator do processo, Cristiano Zanin, votou para derrubar a lei da desoneração por entender que não poderia ter sido editada sem prever medidas para compensar a perda de arrecadação. Mas ele optou por não analisar o mérito do acordo firmado entre o governo e o Congresso em 2024, já que não foi questionado na ação. O relator foi acompanhado, até o momento, pelos ministros Edson Fachin e Gilmar Mendes.

Para a Advocacia-Geral da União (AGU), mesmo com o acordo havia risco de prejuízo de R$ 20,23 bilhões para os cofres públicos em 2025.

FONTE: O Estado de São Paulo – 24/02/2026 – B1 e B2