Possível redução de jornada esbarra em baixa produtividade

Possível redução de jornada esbarra em baixa produtividade

O projeto de redução da jornada de trabalho no Brasil expõe um velho entrave da economia nacional: a baixa produtividade. Se aprovada pelo Congresso, a mudança deverá elevar o custo da hora trabalhada para as empresas, ampliando a pressão por ganhos de eficiência capazes de compensar o gasto maior. A proposta em debate prevê, por

exemplo, a substituição do modelo atual de 6×1 (seis dias de trabalho e uma folga) pelo 5×2 (cinco dias de trabalho e duas folgas), sem redução salarial. Em um ano marcado por eleições, o tema ganha tração entre congressistas. Entre os fatores que explicam o lento crescimento da produtividade brasileira estão a má qualidade da educação, a insegurança jurídica e as políticas industriais ineficientes. A experiência internacional mostra que a equação não é simples de resolver. Os países que conseguiram compensar a alta do custo da hora trabalhada foram os que souberam construir economias mais produtivas.

A tentativa de mudança da jornada de trabalho no Brasil esbarra em um grande desafio: caso o País queira acabar com o modelo 6×1 (seis dias de trabalho por um de folga) e adotar o 5×2 (cinco dias de trabalho e duas folgas), sem redução salarial, terá de melhorar a produtividade do trabalho. Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estimou que o custo da hora de trabalho deve aumentar 7,84% se a jornada for reduzida para 40 horas (mais informações na pág. B2). Sem melhorar a eficiência, não será possível compensar o aumento do custo do trabalho por hora.

Quando se olha o histórico brasileiro, é uma equação que pode ser difícil. A produtividade brasileira cresceu muito pouco nas últimas décadas. O tema da redução de jornada de trabalho é global e, nos locais em que prosperou sem grandes impactos para o dia a dia das empresas, o ganho de produtividade foi peça-chave.

A proposta de mexer na jornada de trabalho é uma das bandeiras da campanha de reeleição do presidente Lula e, com a proximidade da eleição, ganhou tração no Congresso. Para os empresários, há temor de

Em 1981, o brasileiro produzia R$ 33,20 por hora; em 2024, o valor cresceu pouco: R$ 42,40/hora

perda de competitividade, pressão sobre margens e incerteza em relação à capacidade de manter o nível de produção. Entidades do setor industrial apontam graves prejuízos à economia se ocorrer alguma alteração na jornada de trabalho e falam em prejuízos bilionários.

Por outro lado, alguns analistas defendem a redução da jornada com o argumento de que mais descanso pode melhorar saúde, engajamento e qualificação dos trabalhadores, gerando ganhos indiretos de eficiência.

PONTO CENTRAL. No centro da discussão está a pergunta que vai além da jornada: o País conseguirá transformar menos horas trabalhadas em mais valor produzido? Ao longo das últimas décadas, o Brasil tem tido dificuldade para melhorar a produtividade do trabalhador. Isso não quer dizer que o brasileiro trabalhe poucas horas. O que ocorre é que o trabalhador não conseguiu aumentar o quanto produz de forma significativa, mesmo com todos os avanços tecnológicos.

Segundo levantamento do Observatório da Produtividade Regis Bonelli, ligado ao Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV/Ibre), em 1981, o brasileira produzia R$ 33,20 por hora. Em 2024, mais de 40 anos depois, esse valor cresceu pouco: R$ 42,40, em valores de 2021.

“A produtividade brasileira está estagnada desde a década de 80. Cresce muito pouco. É muito difícil acreditar que a gente vai trabalhar menos horas e a produtividade vai explodir para compensar (a redução das horas trabalhadas)”, afirma Fernando de Holanda Barbosa Filho, pesquisador do FGV/Ibre. •

Vários fatores explicam o lento crescimento da produtividade no Brasil. Eles passam pela má qualidade da educação, pela insegurança jurídica, por políticas industriais ineficientes, entre outros. Acelerar esse crescimento é importante porque as nações que conseguiram enriquecer foram as que construíram economias mais produtivas.

“Na era da IA, o desafio é outro: habilidades. É preciso treinar desde o jovem, que está na escola, até o seu pai, hoje empregado, a desenvolver novas habilidades para desempenhar funções cada vez mais digitalizadas”, diz o economista José Roberto Afonso. “Se mudar escala de trabalho resolvesse essa questão difícil, todos os países estariam a adotando. Enfim, o mundo mudou, os problemas e as necessidades mudaram. E mudar a escala não os resolverá.”

AUMENTO DE CUSTO. Estudo divulgado este mês pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estimou que o custo da hora de trabalho deve aumentar 7,84% se a jornada for reduzida para 40 horas.

“Setores como saúde, educação e serviços financeiros já têm pouca prevalência de jornada acima de 40 horas. Já comércio, indústria e agropecuária têm maior participação de trabalhadores que cumprem jornada de 44 horas. Portanto, o aumento no custo da hora de trabalho para esses setores diretamente seria maior”, diz Felipe Vella Pateo, técnico de planejamento e pesquisa do Ipea.

Quando se analisa o peso do trabalho nos custos operacionais das empresas, o impacto estimado é de 1% na indústria e no comércio e pode chegar a 6,6% para o setor de vigilância, segurança e investigação.

O professor titular da Cátedra Ruth Cardoso no Insper, Naercio Menezes Filho, tem uma visão positiva sobre o debate e entende que o Brasil está preparado para esse processo. “Temos condições de reduzir a jornada para 40 horas e, provavelmente, não haverá grandes repercussões sobre o PIB ou desemprego”, diz ele, destacando que o País já promoveu uma redução em 1988, quando a Constituição derrubou a jornada de 48 horas semanais para 44 horas e não houve aumento do desemprego.

Para ele, a redução da jornada pode alterar a produtividade de várias maneiras. “Os trabalhadores podem ficar mais produtivos por terem mais tempo para o lazer e para conviver com os filhos. Isso pode aumentar a produtividade.”

Nos últimos anos, vários países reduziram a jornada de trabalho e passaram a discutir me

“Se mudar escala de trabalho resolvesse essa questão, todos os países estariam a adotando”

“O mundo mudou, os problemas e as necessidades mudaram. E mudar a escala não os resolverá”

José Roberto Afonso Economista

nos dias de trabalho.

No Reino Unido, ao testar a semana de quatro dias de trabalho, houve queda de 65% no número de dias de licença médica e redução de 57% na probabilidade de o funcionário pedir demissão.

“À medida que o trabalhador está mais descansado, isso impacta o absenteísmo”, afirma Otto Nogami, professor do Insper. “Você passa a ter menor absenteísmo. Pode ser que haja menor rotatividade e maior engajamento, porque o trabalhador, com mais tempo para o lazer, tende a se sentir mais feliz.”

Em Portugal, a jornada de trabalho foi reduzida de 44 horas para 40 horas, em 1996. Depois da mudança, houve um aumento de 9,2% no custo do trabalho por hora, mas também um crescimento de 7,9% na produtividade por hora.

Entre os fatores que contribuíram para o aumento da produtividade estão a melhora na qualidade do trabalho, com empregados mais descansados, e o processo de reorganização produtiva das companhias.

“As empresas otimizaram processos e aumentaram a intensidade de capital para manter a viabilidade econômica diante de custos trabalhistas mais elevados”, afirma Marta C. Lopes, integrante do centro de estudos UECE/REM (uma unidade de pesquisas econômicas e matemáticas), da Universidade ISEG, em Lisboa.

Ela foi uma das autoras de um estudo – também conduzido por Kentaro Asai e Alessandro Tondi – que buscou apurar como a reforma portuguesa impactou o emprego, a produção e a produtividade das empresas. “A redução (da jornada) deve vir acompanhada de incentivos à modernização tecnológica e à reorganização do trabalho, pois apenas o ganho de eficiência pode sustentar a viabilidade das empresas no longo prazo diante de custos mais altos.”

O exemplo de Portugal também deixou evidentes outros dois pontos: as vendas recuaram, indicando que as empresas não conseguiram manter o nível de atividade anterior, e houve uma diminuição no ritmo de contratações.

PERSPECTIVA. “A avaliação (da redução da jornada em Portugal) depende da perspectiva. Se olharmos para a eficiência e a produtividade, o balanço é positivo, pois as empresas se tornaram mais produtivas por hora. No entanto, do ponto de vista do emprego e da produção, o estudo identificou efeitos adversos moderados”, afirma Marta.

Em alguns países, como França e Bélgica, houve a redução de encargos sociais cobrados pelo governo para acompanhar a redução da jornada. No Brasil, no entanto, esse caminho parece mais difícil dada a atual restrição fiscal brasileira.

Fonte: O Estado de São Paulo – 23/02/2026 – B2