Argentina abre economia, inflação cai e PIB avança, mas indústria sofre
País passa por profundas mudanças econômicas no governo de Javier Milei. Resultados são heterogêneos.
A economia da Argentina vive um momento de contrastes. Enquanto o risco país e a inflação caem e o Produto Interno Bruto (PIB) sobe, grande parte da indústria fica menor. Os indicadores econômicos que divergem do desempenho industrial escancaram a realidade argentina: um país que passa por uma reforma econômica profunda implantada pelo governo de Javier Milei, mas cujos resultados são heterogêneos.
Se for analisada a atividade geral do país, o nível em que ela estava no terceiro trimestre de 2025 era igual ao do mesmo período de 2023 – Milei assumiu o cargo em 10 de dezembro de 2023. Quando são considerados os diferentes segmentos, 36 de 55 se deterioraram, segundo levantamento da consultoria Equilibra, de Buenos Aires.
Um dos exemplos do recuo da indústria é do setor calçadista do país, que encolhe em ritmo acelerado. Nos últimos dois anos – que coincidem com os dois primeiros do mandato de Milei –, ela registrou uma redução de 29,8% na produção. O presidente da associação que reúne o setor, Horacio Moschetto, calcula que 100 fábricas fecharam nesse período (10% do que havia). “O setor enfrenta encerramento de empresas, perda de postos de trabalho e forte queda de produção”, diz Moschetto.
RISCO PAÍS. A situação do segmento é oposta às notícias sobre economia que chegam de Buenos Aires. No final de janeiro, por exemplo, o risco país caiu para menos de 500 pontos pela primeira vez desde 2018. Estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI), ainda, indicam que o PIB argentino cresceu 4,5% no ano passado e deverá avançar mais 4% em 2026.
A inflação também recuou, de 117,8% em 2024 para 31,5% em 2025, atingindo o patamar mais baixo desde 2017, e o nível de pobreza diminuiu para 36,3% no terceiro trimestre do ano passado, após ter alcançado 45,6% no mesmo período de 2024.
Pesquisa aponta que 36 de 55 segmentos da indústria tiveram perdas desde 2023
“Precisamos de mudanças. E a mudança dói para muitos”, diz o economista Andres Borenstein, do banco BTG Pactual na Argentina. “É inevitável e, às vezes, triste. Tem empresa que fecha, tem gente que perde o trabalho, mas também não estava dando certo o que tínhamos antes.”
Levantamento feito pela Equilibra mostra o recuo da indústria, com o setor calçadista puxando os números negativos (queda de 29,8%), depois vêm o têxtil (-27,1%), pesca (-24,6%), vidro, cimento e cerâmica (-22,5%) e plásticos e pneus (-21,9%). Ainda de acordo com o levantamento, dos 36 setores que apresentaram queda na produção, 20 competem com importações. Desses, 80% perderam participação para mercadorias que chegam do exterior.
IMPORTAÇÕES. Historicamente fechada ao comércio internacional, a Argentina viu as importações crescerem 24,7% no ano passado, em grande parte em decorrência da abertura comercial promovida pelo governo Milei. Em abril de 2025, o presidente argentino flexibilizou o controle de acesso ao dólar, o que permitiu maiores compras do exterior.
O libertário também tem reduzido tarifas de importação. No mês passado, por exemplo, a taxa sobre celulares vindos do exterior foi zerada – um ano atrás, era de 16%. Antes, o presidente também havia diminuído o imposto sobre importações de roupas de 35% para 20% e o de calçados de 26% para 18%.
“Até 2023, a Argentina tinha seu mercado quase fechado para importações. Muitos setores dependiam apenas da recuperação do consumo para crescer. Agora, com a abertura, tem mais concorrência, além das compras internacionais nos sites chineses”, diz o economista Dante Sica, sócio da consultoria Abeceb e ministro de Produção no governo de Mauricio Macri. Sica pondera, no entanto, que o acesso ao dólar tem permitido a entrada de bens de capital e de insumos mais baratos, o que favorece a produção nacional.
FONTE: O Estado de São Paulo
