A estagnação da produtividade mantém o Brasil pobre

A estagnação da produtividade mantém o Brasil pobre

Cláudio Adilson Gonçalez Economista e diretor-presidente da Vértice Macroeconomia, foi cofundador da MCM Consultores, consultor do Banco Mundial, subsecretário do Tesouro Nacional e chefe da Assessoria Econômica do Ministério da Fazenda

De acordo com o Observatório de Produtividade da Fundação Getulio Vargas, a produtividade do trabalho, após ter avançado na primeira década deste século, encontra-se essencialmente estagnada há cerca de 15 anos. Desde o início da série (1981), até 2024, o crescimento médio anual foi de apenas 0,27%. Isso ocorreu a despeito do aumento expressivo da escolaridade média da força de trabalho.

Embora a produtividade por pessoa ocupada tenha apresentado ganhos pontuais em determinados períodos, esses avanços desaparecem quando se utiliza a métrica mais adequada, a produtividade por hora habitualmente trabalhada. Isso revela um padrão de crescimento intensivo em mão de obra, marcado pela incorporação de trabalhadores em ocupações de baixa eficiência.

As causas dessa estagnação são estruturais e atuam em três dimensões principais. A primeira é o baixo e mal direcionado investimento em capital físico. A taxa de investimento no Brasil permanece reduzida, em torno de 17% a 18% do PIB, com forte concentração em ativos de menor conteúdo tecnológico e baixa difusão de automação, inovação e tecnologias digitais, o que limita o crescimento da qualidade e da quantidade do capital por trabalhador.

Próximo governo precisará colocar a agenda da produtividade no centro

A segunda dimensão é o capital humano. Apesar do aumento dos anos médios de estudo, a qualidade da educação segue baixa e há forte descasamento entre qualificação formal e ocupação efetiva. Uma parcela significativa de trabalhadores com ensino médio ou superior atua em atividades de baixa complexidade, reduzindo o retorno produtivo da escolaridade.

A terceira dimensão, e a mais importante, é a má alocação de recursos. Evidências apontam que capital e trabalho não fluem para as empresas e setores mais produtivos. A elevada informalidade, a baixa mobilidade do trabalho, a fragmentação produtiva, distorções tributárias e subsídios mal calibrados mantêm empresas pouco eficientes operando e dificultam o crescimento das mais produtivas.

A isso soma-se o elevado grau de fechamento da economia, que reduz a pressão competitiva, dificulta a difusão tecnológica e retarda a modernização dos processos produtivos. Como resultado, setores de baixa produtividade concentram parcela desproporcional do emprego.

A reforma dos impostos indiretos, aprovada em 2023, pode contribuir para elevar a produtividade ao reduzir distorções e melhorar a alocação de recursos. Seus efeitos, porém, são insuficientes para garantir crescimento sustentável, sobretudo em um contexto de endividamento crescente do governo.

O próximo governo precisará colocar a agenda da produtividade no centro da política econômica. Sem isso, a importante reforma tributária já aprovada e o ajuste fiscal serão insuficientes para tirar o Brasil da armadilha do baixo crescimento.

FONTE: O Estado de São Paulo – B2 – 02/02/2026