A encruzilhada da indústria automotiva brasileira
Fabio Rua Vice-presidente da General Motors América do Sul
Algumas decisões não fazem barulho quando são tomadas, mas moldam silenciosamente o País dos próximos anos. O mundo atravessa transformações profundas nas cadeias de produção, no uso da energia e nas tensões geopolíticas. Nesse novo tabuleiro global, soberania não se afirma em discursos, mas em escolhas.
O Brasil é parte ativa do comércio internacional: mercado produtor e exportador. Logo, a questão não é se faremos parte do jogo, mas qual papel queremos desempenhar. A decisão passa por entender a diferença entre produzir e montar.
Produzir é dirigir: investir tempo, capacitar e dominar tecnologias. Montar é pegar carona, optar por atalhos. Dessa distinção surge a encruzilhada: queremos ser destino de produtos acabados ou plataforma de valor agregado e inovação?
Na indústria automotiva, essa escolha foi feita no passado com impactos estruturantes. O setor é um dos pilares da indústria nacional, responsável por 20% do Produto Interno Bruto (PIB) industrial, por mais de 1,3 milhão de empregos e engenharia de ponta.
O segmento automotivo no Brasil projeta R$ 130 bilhões em investimentos até 2030, com foco em pesquisa e desenvolvimento. Há ainda um diferencial estratégico: nossa matriz energética. Estudo do BCG indica que, com mais de 80% da eletricidade de fontes renováveis, os veículos produzidos no Brasil apresentam menor intensidade de emissões ao longo de
Queremos ser destino de produtos acabados ou plataforma de valor agregado e inovação?
seu ciclo de vida. Transição energética e produção nacional andam juntas.
Após 100 anos no Brasil, a GM sabe o que é produzir aqui: projetar, testar, decidir e gerar conhecimento. Sabemos também que economias abertas convivem com importações. Regimes como Semi-Knocked Down (SKD) e Completely Knocked Down (CKD) podem ter papel transitório. O problema é quando o instrumento substitui a estratégia.
Dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) mostram que a simples montagem de veículos a partir de kits importados elimina 69 mil empregos diretos, afeta 227 mil postos indiretos e gera perdas anuais de R$ 103 bi no setor de autopeças, R$ 26 bi em arrecadação tributária e R$ 42 bi em exportações. Uma vez perdida a capacidade produtiva, reconstruí-la é um processo caro e lento.
Política industrial é coerência ao longo do tempo. Defender produção local não é protecionismo; é planejamento. É dessa escolha que se constrói a soberania produtiva, pois as decisões de hoje definem a capacidade industrial do Brasil amanhã. É a partir dessa visão que a não renovação do benefício tributário para a importação nas modalidades CKD e SKD para veículos eletrificados deve ser compreendida. O futuro do Brasil não pode vir de navio. Precisa ser construído aqui.
FONTE: O Estado de São Paulo
