Qualificação mais baixa alimenta alta rotatividade de trabalhadores

Qualificação mais baixa alimenta alta rotatividade de trabalhadores

Mais de 9 milhões de trabalhadores solicitaram desligamento em 12 meses até abril. A maioria deles trocou de emprego.

Na última segunda-feira, Vanessa Passos, de 42 anos, pediu demissão de um emprego com carteira assinada, no qual trabalhou por nove meses como recepcionista bilíngue.

Ela decidiu sair porque foi aprovada para uma vaga, também de atendimento ao público, mas que oferece melhores condições de trabalho e perspectivas de crescimento profissional em relação ao último empregador.

No novo emprego, o salário será 10% maior, haverá aumento significativo nos benefícios, como o valor do vale-alimentação. Além disso, o local de trabalho fica mais perto da sua casa – ela mora na zona leste da capital paulista e vai trabalhar no Sesc Belém, na mesma região. O convênio de saúde oferecido pelo novo empregador também é melhor, e a empresa tem plano de carreira.

Fluente em inglês por ter morado nos Estados Unidos, Vanessa é formada em gestão de Recursos Humanos e tem pós-graduação em Psicologia organizacional. Vai começar em uma vaga de nível médio, mas vê possibilidade de evoluir.

Mais vagas

Taxa de desemprego, em 5,8% até abril, é a menor registrada na série histórica

Em um ano, ela pretende tentar alguma vaga interna em que possa ganhar mais. “Minha amiga fez igual e hoje recebe o dobro do que eu vou começar a ganhar agora.”

Vanessa faz parte de um grupo de milhões de empregados com carteira assinada que decidiram pedir demissão em busca de uma oportunidade melhor de ocupação num momento em que o mercado está superaquecido e favorável aos trabalhadores.

O aquecimento aparece não apenas na taxa de desemprego, que ficou em 5,8% no trimestre encerrado em abril, o menor índice para o período desde o início da série histórica, que começou em 2012, da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Mas também nos níveis recordes de rotatividade da mão de obra e do número de brasileiros que decidiram pedir demissão.

Em 12 meses até abril, 9,1 milhões de trabalhadores se desligaram do emprego formal a pedido. É a maior marca da série iniciada em dezembro de 2004, segundo aponta um estudo da consultoria 4intelligence, elaborado a partir de dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho e Emprego.

“Um pouco mais da metade dos trabalhadores formais trocaram de emprego em 12 meses”, observa o economista Bruno Imaizumi, responsável pelo estudo. Ele se refere à taxa de rotatividade, que atingiu 52,6% em abril. É um resultado recorde da série que começou no fim de 1995.

O ritmo acelerado com que os brasileiros estão trocando de emprego com carteira assinada reflete o aquecimento do mercado de trabalho e também questões estruturais. O economista Bruno Imaizumi, da 4intelligence, diz que parte desse movimento ocorre porque os trabalhadores estão encontrando novas oportunidades. Mas lembra que o mercado brasileiro é formado por uma grande massa de pessoas com qualificação média e baixa e que as vagas abertas exigem menos requisitos. “É uma questão estrutural.” Por isso, em momentos de aquecimento, a rotatividade cresce ainda mais.

Hélio Zylberstajn, professor sênior da FEA-USP, coordenador do Salariômetro e especialista em relações do trabalho, concorda com Imaizumi. Para ele, há uma parcela estrutural e outra conjuntural que explicam a alta taxa de rotatividade da mão de obra na economia brasileira.

Segundo Zylberstajn, o nível de comprometimento entre empresas e trabalhadores é baixo. “Não há muito compromisso nem muita ética no mercado de trabalho. As empresas não investem nos trabalhadores porque imaginam que eles não vão permanecer por muito tempo. E os trabalhadores não investem nas empresas pela mesma razão.”

Em outros países, observa o professor, os contratos de trabalho costumam ser mais duradouros devido à existência de regras que restringem a mobilidade. Imaizumi acrescenta que muitas empresas não oferecem planos de carreira nem estruturas salariais atrativas. “Qualquer ganho adicional que o trabalhador enxergue em outra oportunidade tende a motivar uma mudança, seja por remuneração, benefícios ou qualidade de vida.”

PERFIL. Em números absolutos, o maior volume de pedidos de demissão nos últimos 12 meses concentrou-se entre trabalhadores com ensino médio e cerca de 40 anos de idade, faixa que representa grande parte da população economicamente ativa.

Quando a análise considera a participação dos desligamentos voluntários em relação ao total de desligamentos de cada grupo, porém, os jovens e os mais escolarizados se destacam. Em abril, a taxa média acumulada em 12 meses dos pedidos de desligamento voluntário em relação ao total de desligamentos foi de 36,7%. Entre os trabalhadores com ensino superior incompleto, essa fatia foi 43%. Já entre os profissionais com até 17 anos, alcançou 44%, segundo o estudo da 4intelligence.

SERVIÇOS. Responsável por 57% dos empregos formais e 70% do PIB, o setor de serviços é um dos que mais sentiram a alta da rotatividade da mão de obra.

Um estudo da FecomercioSP com base em dados do Caged mostra que a rotatividade no setor subiu de 42% em 2021 para 50% neste ano. O avanço também aparece no tempo médio de permanência no emprego: em fevereiro de 2021, um trabalhador permanecia, em média, 25 meses na mesma empresa; neste ano, esse período caiu para 18 meses. No mesmo intervalo, o volume de admissões cresceu cerca de 80%, indicando um mercado aquecido, mas mais instável.

“Para as empresas e para a economia, a alta rotatividade é prejudicial, porque gera custos”, afirma o assessor econômico da FecomercioSP Bruno de Souza Pinto. Segundo ele, o aumento na movimentação de trabalhadores eleva tanto despesas com verbas rescisórias quanto gastos com recrutamento e treinamento.

Efeito

Empresas se queixam do aumento de gastos com verbas rescisórias, contratação e treinamento

FONTE: